Uma parede inteira é tomada por reproduções em off-set de desenhos a nanquim, tão despretensiosos quanto aparentemente estranhos ao museu. A linguagem remete às ruas abarrotadas das supermetrópoles, com seus streetstickers que procuram transgredir - se é que isso ainda é possível - o já esgotado espaço visual do caos urbano.
Um urbanóide típico de uma megacidade? Nada de rótulos. É Charles Klitzke, um jovem artista. Antes de Jaraguá do Sul (SC), agora do Brasil. Uma façanha, sem dúvida. Um estímulo a tantos outros, absolutamente "fora dos eixos", daqui e de tantos outros "cantos".
Num primeiro contato "cara a cara", há poucos anos, sem se dar conta de que o sistema também era seu, Klitzke apresentava em Jaraguá do Sul uma espécie de cartaz, onde anunciava um duelo "fictício" entre a crítica e o artista. Dizia não ter pensado "naquilo" como um objeto para uma exposição. O interesse da curadoria foi inevitável, e a inclusão da peça - aquela e posteriormente outras, em várias exposições - foi uma questão de tempo.
A inexperiência do jovem artista guardava uma vivaz e contundente vontade, algo que depois foi reforçado pela busca da formação e contextualização. Suas "provocações", nunca antes pensadas para os museus, passaram a ser valorizadas justamente por esses espaços, sem abandonar, no entanto, o meio alternativo e independente de onde surgiram.
Ações extramuseológicas tornaram-se comuns nos discursos pós-modernos, como possibilidades de expansão do espaço expositivo e sua conseqüente dessacralização. Arthur Danto, em "Após o fim da arte", ressalta que as principais ambições da arte contemporânea não são estéticas, e seu modo de relacionamento não se destina a espectadores enquanto espectadores, mas a outros aspectos das pessoas a quem a arte se dirige. Para ele, a apreensão dos conteúdos não se dá necessariamente por freqüentadores usuais de museus, mas pode ser endereçada, por exemplo, a comunidades particulares, definidas por linhas econômicas, étnicas, religiosas, ideológicas ou sexuais, entre outras.
"O que vemos hoje é uma arte em busca de um contato mais imediato com as pessoas do que aquele possibilitado por um museu... e este, por sua vez, luta para acomodar as imensas pressões que lhe foram impostas no âmbito da arte e fora dele. Portanto, testemunhamos, tal como vejo, uma tripla transformação: na criação, nas instituições e no público de arte." Arthur Danto
O pensamento de Danto parece perfeito à realidade de Charles Klitzke. A seriação de desenhos reproduzidos em off-set é mais um passo do artista que trabalha à margem de categorias artísticas, que parte dos fanzines e stickers como meio de expressão da contra-cultura e da contra-economia, acessível a outros públicos. Nessa tripla transformação, seu processo libertário encontra, não raramente, a via contrária, ao sair do underground e conquistar (novamente) o sistema institucional e suas outras tribos.
Ao propor tensões entre materiais e linguagens que remetem ao espaço urbano e o que seria pertinente a um museu em sua concepção modernista, Klitzke resgata esse aparente paradoxo e, por outro lado, mantém o aspecto inacabado e contrastante de seus desenhos do cotidiano. A materialização da obra é atemporal, e com a colagem das reproduções sobre toda a parede, também se torna inespecífica, sem deixar de dialogar com as possibilidades que o espaço lhe confere, reconstruindo-o criticamente. Nesse caso, não se faz necessária a presença do artista em sua execução final, já que tanto o projeto (memorial descritivo) quanto a reprodutibilidade da intervenção adquirem estatuto de obras de arte, justamente pelo conceito que se basta.
Charles Narloch
25/02/2007